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Rolling Stones - Sympathy For The Devil * por Ana Macitelli e Mario Marino

A exposição Música e Cinema: o casamento do século? (no Sesc Pinheiros em São Paulo) mostra uma cena dos Rolling Stones num estúdio em Londres com Mick Jagger em primeiro plano. Um senhor de terno e gravata saúda um dos músicos. Apesar do seu aspecto careta, este senhor é o corrosivo cineasta Jean-Luc Godard, que está no estúdio filmando o conturbado processo criativo dos Stones.

Godard sempre foi competente em captar o ar do seu tempo, sobretudo o estado da alma da juventude nos anos sessenta. Assim foram os seus filmes de enquete política mais conhecidos como Masculino-Feminino (1966) e o queridinho da crítica A Chinesa (1968), e também o pouco conhecido Tout va bien (1972). Para este último Godard escalou o veterano Yves Montant e a estrela Jane Fonda para encenar a ocupação de uma fábrica em pleno 68 e o clima de desolação que seguiu o refluxo do movimento contestatório. Ainda na cena política, Week-end à francesa (1967) – considerado por alguns o seu melhor filme – retrata o fim das ideologias e uma sociedade em aparente colapso por meio de cenas de canibalismo, assassinatos e guerra.

Em 1968 Godard vai para a Inglaterra atrás de mais um tema social. Era o projeto de um filme sobre a legalização do aborto, que não foi realizado. Godard volta-se então para a cena pop por excelência, a inglesa. Nessa mesma época é lançado o filme Magical Mystery Tour dos Beatles. O diretor tenta fazer um documentário com a banda, mas é recusado.

Após a repercussão do disco Beggars Banquet, Godard entende que os Rolling Stones podem ser os agentes perfeitos para simbolizar o clima de anarquismo do maio 68, mostrando a subversão e destruição dos “valores” de uma civilização.Ensaio

Assim, em junho de 1968, Godard se junta aos Rolling Stones no Olympic Studios em Londres para acompanhar o processo criativo da banda, que resultou no documentário Sympathy for the Devil, o mesmo nome de uma das músicas mais conhecidas da banda. Diz uma lenda que os Stones eram admiradores de Godard e que teriam aceitado imediatamente a oferta do diretor. Outra diz que ele era completamente desconhecido pela banda. Há ainda quem diga que foram convencidos pelas imagens de Bardot, nua em algumas cenas de O Desprezo.

Logo o diretor se depara com um ambiente tão conturbado quanto o do mundo naquele momento. Os Stones estavam em guerra entre si, Mick, Brian e Keith os mais evidentes perturbados por causa das drogas. O próprio Godard encontrava-se em conflito com produtores e financiadores, sem falar dos críticos, que no lançamento do documentário ridicularizaram o diretor e o filme rotulando-o de pretensioso, incompreensível e, o pior, extremamente chato. Uma das frases mais célebres a respeito é do filósofo Guy Debord que disse “essa é a obra de cretinos e Godard é o mais cretino de todos eles”.

A polêmica com os produtores durou até o lançamento do filme. Os produtores lançaram uma versão do filme com um corte onde Sympathy é tocada inteira, entregando ao público um produto acabado. Na versão do diretor, os trechos de ensaio se sucedem incompletos. Consta que Godard entrou na sala de exibição recriminando os produtores e convidando o público a assistir à sua montagem, cujo nome é One plus one, onde mostra o caráter aberto cultura pela repetição da música inacabada.

Por tudo isso, Sympathy for the Devil é um filme cheio de rachaduras. Sua estrutura intercala cenas dos ensaios com planos que mostram o clima político da época: num desmanche de carros, os Panteras Negras executam virgens brancas e dão entrevistas. Entre um manifesto e outro, vem a questão da apropriação da música negra pelos brancos. Há também slogans daquele momento sendo pichados em muros e outros lugares inusitados. Numa livraria, um personagem lê Mein Kampf para hippies maoistas. A cena final junta o cadáver ensanguentado de uma guerrilheira urbana com a trilha dos Stones.vlcsnap-2015-01-07-20h22m50s7Ainda como sintoma desses deslocamentos, nas cenas dos Stones a música é constantemente repetida e retrabalhada, e nesse vertiginoso processo vislumbra-se a dinâmica do grupo. Bill Wyman e Brian Jones ficam à margem, quase em ostracismo. Charlie Watts está impecável em cada centímetro de sua persona de baterista de jazz, desde sua batida e até vestimenta apurada. Jagger é uma figura lânguida, entediada, sexualmente ambígua e cruel, que só volta à vida quando canta. De todos eles o mais interessante é Keith Richards, com seus olhos brilhantes, inteligentes e ferozmente inquietos. Ele altera ritmos e como um maestro maquiavélico introduz suas sugestões, a mais relevante é quando ele leva a banda e as pessoas ao redor (incluindo a bruxa Anita Pallenberg) a cantarem em um quase transe “whoo, whoos” que fazem com que a música ganhe sua aura tão maliciosa, sinistra e surpreendente.

O gosto conturbado desse happening é o tom que Godard pareceu desejar para mostrar uma época onde tudo parecia em jogo; os trechos musicais incompletos, abandonados e destruídos rimam com o que o diretor mostra do mundo de elementos aparentemente desconexos. Com o olhar de hoje sobre aquela época, tudo isso parece um grandioso “snapshot” de um instante perdido e longínquo onde o rock ainda era uma força redentora e revolucionária.

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