Magia ao Luar

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* por Leonardo Beni Tkacz e Maria Lúcia Homem

Magia ao Luar é a nova produção de Woody Allen, que assina a direção e o roteiro. Desde Match Point (2005), o velho continente tornou-se o cenário preferido para filmar suas histórias. Dessa vez, o palco é a região sul da França, na mágica Riviera Francesa, na década de 1920.

Para contar a nova história, Woody Allen recorta o universo dos mágicos e dos médiuns daquela época; ao que parece eram figuras admiradas pela sociedade. Isto se vê na abertura da primeira cena do filme, um teatro lotado, uma plateia bem vestida e atenta ao espetáculo. Daquele universo, o roteiro discute o tema do olhar. Tão logo inicia o filme, o diretor convida a audiência a percorrer um recorte: uma tomada em close-up do olho de um elefante que está no palco, como se levasse o espectador, num passe de mágica, a “colar-se” no olho do animal. Mas o elefante desaparece por um ato do mágico. Logo, o espectador também vai “desaparecer” enquanto visão, pois está “colado” ao olho do animal, o que não quer dizer que não haverá algum olhar.

Nesse ato do diretor, algo poderia ser pensado como se fosse um ato simbólico ou um ato metafórico, cuja eficácia se traduziria por um “corte” entre o campo da percepção visual e o campo do olhar, como podendo ser distintos. Esse anúncio dá tom da história que se desenrolará na tela. Desse modo, todos estão implicados de alguma maneira, inclusive aquele que assiste o filme. Mas implicados no quê? Bem, é como se todos pudessem “perder-se” nos deslocamentos discursivos que aquele “ato simbólico” produzir nos rastros do olhar. Daí decorreriam duas questões para além do filme: não seria deste modo que se constitui a função da ilusão? Ou ainda, não seria assim que uma ficção se constrói?

A trama coloca frente a frente dois personagens que se situam em posições aparentemente antagônicas em relação ao olhar. De um lado, tem-se um mágico renomado na Europa, Stanley Crawford (Collin Firth), que é um representante do discurso da ciência, que só acredita no que vê e observa, apesar de “vender ilusões”. Desse lugar do saber, ele também é reconhecido por detectar os truques dos falsos médiuns e desmascará-los publicamente. De outro, tem-se a suposta médium, Sophie (Emma Stone), que angaria cada vez mais o reconhecimento das famílias ricas no sul da França, pois consegue ver imagens e cenas do passado das pessoas, o que as fascina. Além disso, promove sessões mediúnicas onde os mortos comunicam-se com os vivos. De certa maneira, também “vende ilusões”.

Stanley recebe a visita de Howard Burkan (Simon McBurney), amigo e também mágico que lhe propõe desmascarar os truques de Sophie. Stanley aceita a proposta como se fosse um desafio. Em realidade, essa empreitada fora encomendada a Howard por alguns membros de uma família na Riviera Francesa que estavam muito preocupados com o fascínio que outra parte dos familiares demonstrava em relação aos poderes da moça.

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No desenvolvimento da trama até seu desenlace há um embate entre Stanley e Sophie no que consideram a “verdade” do que se vê, algo que, pouco a pouco, vai sendo desvelado como se desvenda os truques de mágica. Porém, o que se constata é que há sempre um “furo” na tal “verdade”. Não seria através desse que um circuito do olhar se daria? Mesmo quando não se sabe de onde se é olhado pelo outro? Stanley conta uma passagem de sua vida que ilustra este tempo do olhar.

Quando era menino costumava ir a um observatório astronômico. Mirava o espaço por meio de uma luneta especial, cujo alcance permitia ver todo o universo estrelar. Porém, todas as vezes que tentava ver não conseguia, havia algo como um impedimento, sentia uma ameaça vinda de cima, como se o universo o olhasse. Como não sabia o que esse queria com ele, instalava-se a angústia, uma “verdade” traduzida em certeza. Stanley chamava isso medo. Numa cena do filme, as personagens se encontram, por uma contingência, nesse mesmo observatório, local que ele não ia há muitos anos. Stanley faz questão de mostrar a Sophie essa constelação. Quando ela vê, ou ainda, quando olha, pergunta a ele, num tom incrédulo: “Mas é disso que você tem medo?” Ele vê, ou melhor, olha, e diz surpreso: “Agora, não mais.” O interessante da cena é que o universo continuava o mesmo, o que faz pensar que ao escutá-la naquele tom, algo fez com que um olhar pudesse seguir outro circuito que não o de ser olhado do ponto de uma ameaça. Essa é uma das chaves interessantes que a película oferece para pensar sobre o tema do olhar e do seu circuito na construção de uma ficção, não apenas como gênero de filme, mas como uma das respostas subjetivas diante da vida.

Nesse sentido, o que se poderia ver e o que se poderia escutar, na ficção construída por Stanley e Sophie, seria algo como um deslocamento discursivo produzido pelos equívocos do olhar. Estes também são efeitos que se produzem no espectador e, por que não dizer, dos enganos engendrados do olhar deste que lhes escreve. Talvez essa seja a implicação mais interessante do roteiro, a de que cada um possa “perder-se” nos equívocos do olhar.

* Leonardo Tkack é psicanalista, membro da associação psicanalítica de porto alegre, mestre em psicologia pelo inst. de psicologia da usp e professor convidado do centro de estudos psicanalíticos.

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