Outra pausa no cinema: erro histórico?

Hoje não aceitamos mais a ideia grega de que uma vida privada, própria ao indivíduo (idion), remete à palavra idiota, aquele que vive à parte do mundo.

Hannah Arendt pode nos ajudar a entender certas atitudes diante dos recentes movimentos de protesto.

Aristóteles entendia que uma atividade só era livre quando fosse desvinculada da necessidade. Assim, o escravo estava permanentemente preso à pura determinação corporal e os artesãos, enquanto temporariamente nesta condição, ainda estavam presos à atividade ligada às coisas necessárias ou úteis.

A necessidade nos obriga à sociedade para sobreviver. É o nosso aspecto animal (biológico) que nos força a tal associação. A família e o lar eram uma comunidade natural que decorria da necessidade: a manutenção era tarefa do homem, a reprodução tarefa da mulher. Na família, portanto, vive-se junto devido à necessidade e à carência, ou seja, para cuidar do corpo, da alimentação e da reprodução da espécie. Trata-se, portanto de uma forma de comunidade (sociedade) natural, ou seja, ligada à nossa natureza biológica.

O poder pré-político com o qual o chefe de família reinava sobre os seus e sobre os escravos era tido como necessário. Por isso, “todo o conceito de domínio e de submissão (…) eram tidos como pré-políticos, pertencentes à esfera privada, e não à esfera pública”[3].

Segundo o pensamento grego, a nossa capacidade de organização política é “diretamente oposta a essa associação natural cujo centro é a casa (oikós) e a família”[1]. A família é a esfera da necessidade e do particular. A polis era o lugar da liberdade e do comum. Portanto, a “liberdade situa-se exclusivamente na esfera política”; a necessidade é um “fenômeno pré-político, característico da organização do lar privado”[2].

Será na polis, na esfera pública, que se conhecerá a liberdade, pois:

  1. Trata-se de um lugar de iguais: não se governa nem se é governado. Ser livre significava “ser isento da desigualdade presente no ato de comandar”, significava ausência de governo e de governados.
  2. O que marca a polis é a reunião destes homens livres e iguais (na praça pública – ágora), uma condição na qual os homens não estavam sujeitos às necessidades nem ao comando de outro.

Ou seja, a invenção da esfera da polis era para os gregos a vitória da liberdade sobre a necessidade.

Dos gregos até hoje, há um abismo entre a esfera da necessidade e a da política. Se pensarmos nas nossas atividades diárias, qual das esferas nos toma? Se pensarmos nos modos como nos organizamos e como organizamos as nossas cidades, instituições, costumes, códigos morais, valores, modos de vida etc., veremos que constituímos uma coisa que hoje em dia chamamos de sociedade.

Somos uma sociedade de ‘necessitados’. Construímos as nossas vidas em torno do trabalho visando satisfazer necessidades, sejam elas materiais ou simbólicas. Isto é tão forte que, segundo Arendt, mesmo um autor como Marx definiu a política como “apenas uma função da sociedade”, tendo ‘comprado’ esta ideia dos economistas políticos modernos.

A coragem de abandonar o excessivo amor à vida como pura necessidade para arriscá-la na “impiedosa vulnerabilidade da vida na polis (…) era uma das virtudes políticas mais elementares”[4] na Grécia, onde quem não participasse da ágora poderia ser punido com a perda da cidadania, o que vemos hoje em dia é uma “funcionalização” da política a partir da “elevação do lar doméstico (oikia) ou das atividades econômicas ao nível público, a administração doméstica e todas as questões antes pertinentes à esfera privada da família transformaram-se em interesse ‘coletivo’”[5].

Substituímos a ação corajosa pelo “comportamento”. Nos transformamos em ‘governados’ pela burocracia, que é o governo de ninguém em benefício de interesses privados. Não surpreende que se veja terrorismo onde há coragem política. Ideias elementares da ação virtuosa e do governo de si perderam-se.

Capturar nossa força criativa para a produção de mais capital é tarefa de mecanismos de gestão de tipo comportamental-empresarial, que marcam toda ação ‘política’ como a catástrofe que os ameaça.

[1] ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005, p. 33.

[2] Idem p. 40. Ela prossegue: “Uma vez que todos os seres humanos são sujeitos à necessidade, tem o direito de empregar a violência contra os outros [subjugando escravos]; a violência é o ato pré-político de libertar-se da necessidade da vida para conquistar a liberdade no mundo”.

[3] p. 41. Entre os gregos, os termos ligados a governo de um homem sobre o outro (rei, pai, senhor) “referiam-se originariamente a relações familiares e eram nomes que os escravos davam a seus senhores” (p. 42).

[4] Idem, p. 45.

[5] p. 42.

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